Em 2017, o governo da China anunciou seu plano de se tornar líder mundial em inteligência artificial até 2030. Pouco tempo depois, Vladimir Putin também declarou publicamente o interesse da Rússia em dominar essas tecnologias, dizendo que “”quem liderar na IA governará o mundo.”” Com base nessa corrida tecnológica, os Estados Unidos passaram a ver a inteligência artificial como um fator decisivo para manter sua vantagem militar em futuros conflitos, incluindo essa visão em sua Estratégia Nacional de Defesa de 2018. Como resultado, o exército americano começou a intensificar o uso de sistemas de IA em combate, criando o Projeto Maven, que aplica algoritmos de inteligência artificial para identificar e atacar alvos em todo o mundo.
Na doutrina militar dos EUA, o Comando de Missão permite a execução descentralizada, possibilitando que os subordinados se adaptem aos atritos do campo de batalha. O Exército dos EUA o define como uma abordagem de comando e controle que capacita os subordinados a tomarem decisões com base em competência, confiança mútua, entendimento compartilhado, intenção do comandante, ordens específicas da missão, iniciativa disciplinada e aceitação de riscos. O Comando de Missão é tanto um conjunto de atributos individuais quanto um sistema de adaptação às mudanças no campo de batalha, baseado na filosofia, educação e cultura da profissão militar.
Este conceito evoluiu ao longo das gerações, com cada época se baseando na história e nas mudanças tecnológicas para refinar seus princípios. Contudo, o ressurgimento do Comando de Missão após 2012 refletiu as lições aprendidas no Iraque e no Afeganistão, onde o controle centralizado não conseguiu acompanhar a complexidade do campo de batalha. Em 2012, o Chefe do Estado-Maior Conjunto, Martin Dempsey, publicou um artigo sobre o Comando de Missão. O texto desencadeou uma onda de atualizações doutrinárias e debates que culminaram na publicação, em 2019, do ADP 6-0 Comando de Missão: Comando e Controle das Forças do Exército.
A ideia central era que os princípios básicos do Comando de Missão, incluindo a intenção do comandante, ordens por tipo de missão e execução descentralizada, exigiam líderes adaptáveis. Essa visão é consistente com tratados anteriores sobre comando que se concentravam no papel da iniciativa individual em um sistema educacional mais amplo. O Comando de Missão promove a iniciativa ao se basear na educação e em experiências compartilhadas, em vez de procedimentos rígidos. Ele se destaca em ambientes de treinamento e educação que priorizam a tomada de decisões, a disposição de assumir riscos e a resolução de problemas, em detrimento da aprendizagem mecânica.
Partindo deste princípio, os soldados devem aprender a interpretar casos cruciais, incluindo a criação de cenários de decisão e exercícios de mapeamento para fundamentar sua expertise técnica e capacitar o comando de missão. Além da educação formal, os líderes utilizam novas redes para criar um entendimento comum por meio de atividades como ensaios de missão. Coletivamente, essas atividades produzem conhecimento que facilita a comunicação e a tomada de decisões rápidas, sempre vinculadas ao contexto, apoiando assim a execução descentralizada.
No centro dessa transformação está uma abordagem redefinida para o comando de missão na era da guerra impulsionada por IA. Militares em todo o mundo estão correndo para integrar a IA aos sistemas de comando, buscando acelerar o ritmo e coordenar enxames não tripulados. Mas o que isso significa para o comando de missão?
Para explicarmos melhor essa aplicação, imagine a situação na qual uma companhia de infantaria, atuando como guarda avançada, manobra para apoiar um ataque. Cada pelotão é composto por equipes tripuladas e não tripuladas, utilizando veículos terrestres autônomos equipados com sensores, morteiros e drones de ataque. O comandante da companhia, analisando dados em tempo real de pequenos drones de reconhecimento, satélites e modelos preditivos de terreno, identifica rapidamente a posição ideal para proteger a tropa. Ele designa um pelotão para ocupar a posição e instrui os outros a ajustar as armas em apoio ao esforço principal.
À medida que as ordens são emitidas, algoritmos avaliam o terreno, a prontidão, a literatura sobre o tema e casos históricos para gerar opções de áreas de apoio. Essas recomendações incluem áreas de interesse nomeadas e avaliações de alvos de alto valor com base em possíveis ordens de batalha inimigas. Os líderes de pelotão aprimoram esses insights e emitem orientações rápidas utilizando procedimentos de liderança de tropas. O comando de missão torna-se, assim, uma fusão de julgamento humano e de máquina, permitindo uma guerra centrada em dados.
Este cenário hipotético reflete aspectos do plano de campanha do Exército e o impulso para implementar uma força centrada em dados, capaz de realizar o que é conhecido como “”operações multidomínio”” em escala. Este domínio terrestre é central para gerar efeitos em outros domínios, exigindo que os líderes alcancem a consciência situacional mais rapidamente do que os adversários, pois este sucesso depende do aproveitamento de dados para segmentação, manobras e rompimento da coesão inimiga. Esta vantagem decisória em visualizar a geometria do espaço de batalha e agir mais rápido que o oponente torna-se a nova forma de vencer as batalhas.
Essa mudança deve começar com a forma como o Exército ensina e prepara suas equipes. Os comandantes de combate precisarão entender o básico de inteligência artificial e aprendizado de máquina, além de saber como os novos sistemas analisam dados e fazem recomendações. Para que o Exército realmente se torne uma força orientada por dados e consiga atuar em operações multidomínio, será necessário desenvolver uma forma de comandar as missões em parceria com algoritmos. No entanto, o uso de IA e aprendizado de máquina não substituirá o que sempre foi a base do Comando de Missão: entendimento compartilhado, confiança, iniciativa e ordens claras. Ou seja, ainda haverá planejamento centralizado, mas com execução descentralizada. No fim das contas, fazer esse Exército “”conectado”” funcionar dependerá, como sempre, da educação e do preparo dos seus líderes.
Além disso, o Exército precisará aplicar os princípios do seu Conceito de Aprendizagem, ajudando os líderes a visualizarem como serão as batalhas do futuro, enquanto coletam informações sobre como as decisões são tomadas hoje. Com esse retorno de informações (feedback), os algoritmos poderão ser ajustados para classificar os dados de forma mais inteligente e se adaptarem ao que está acontecendo em tempo real, permitindo uma atuação integrada entre humanos e máquinas.
Fazendo uma outra análise, trazemos também o conceito de guerra algorítmica, que está diretamente ligado ao surgimento das redes de batalha modernas e a ideias como a chamada “”guerra em mosaico””, que vê o combate como um sistema complexo, alimentado por dados e em constante adaptação. Assim como o telégrafo, no passado, transformou a capacidade dos exércitos de coordenar tropas espalhadas, hoje essas redes são globais, atravessando vários domínios (terra, ar, mar, ciberespaço) e envolvendo diversas forças ao mesmo tempo. No caso da China, por exemplo, a doutrina militar já reconhece essa transformação como fundamental, o que levou à criação do conceito de “”operações conjuntas integradas em múltiplos domínios””.
Com a quantidade de informações cada vez maior e a velocidade dos acontecimentos, torna-se cada vez mais importante integrar IA e aprendizado de máquina para construir um quadro operacional unificado e permitir decisões rápidas. A doutrina militar chinesa chama isso de “”guerra inteligente””. No fundo, todos os exércitos modernos buscam montar essas “teias de destruição”, operando em múltiplos domínios de forma simultânea e na maior velocidade possível, superando o inimigo em tempo de reação. Para isso, é necessário grande volume de dados, infraestrutura tecnológica robusta e profissionais capacitados para desenvolver e operar os algoritmos que conferem essa vantagem.
Essas tecnologias e redes super integradas não eliminarão o Comando de Missão (aquele princípio clássico em que os líderes definem o objetivo e as equipes executam). Na verdade, elas irão expandir esse conceito. Os soldados passarão a expressar suas ordens e intenções para as máquinas, que, com algoritmos bem treinados e conhecendo o contexto, saberão o que fazer. O soldado apenas indicará o objetivo, as limitações da operação e algumas preferências de execução. A IA, então, poderá fornecer análises e simulações, indicando a probabilidade de sucesso e se os recursos disponíveis são suficientes para a missão.
Para que tudo isso funcione bem, o Exército precisará manter um banco de dados vivo com essas referências contextuais, basicamente um dicionário prático que ajude as máquinas a entenderem exatamente o que o soldado quer dizer. Assim como, no passado, exercícios de mapeamento, jogos de guerra e treinamentos de estado-maior ajudavam a desenvolver o pensamento estratégico e a criatividade dos comandantes, agora serão necessários novos tipos de treinamento que gerem esses dados, permitindo que as equipes de humanos e máquinas trabalhem cada vez melhor em conjunto.
Contudo, esta corrida armamentista em inteligência artificial militar para desenvolver e implantar tecnologias avançadas de IA e sistemas de armas autônomas letais (LAWS) traz novamente à tona a discussão sobre o uso de super generais com IA. Estes super generais artificiais seriam sistemas altamente avançados, generalistas, integradores e estrategistas, capazes de tomar decisões multidomínio em ambientes complexos, com rapidez e alta capacidade de adaptação, potencialmente superando a capacidade humana em cenários de comando, planejamento e análise estratégica. O surgimento dos super generais artificiais representa um avanço impressionante na forma como planejamos e conduzimos operações militares em cenários complicados e imprevisíveis. Esses sistemas de IA conseguem analisar uma quantidade gigantesca de dados em tempo real, avaliar várias situações simultaneamente e tomar decisões rápidas e precisas, algo que ultrapassa a capacidade humana, principalmente em situações de alta pressão. Mas, ao mesmo tempo em que essas máquinas ganham mais espaço nas decisões de guerra, surge um grande dilema: quem deve ter o poder de decidir quem vive e quem morre?
Mesmo com toda a eficiência que a IA pode trazer, delegar essas escolhas a algoritmos levanta questões delicadas sobre responsabilidade, ética, julgamento humano e respeito às leis internacionais. Afinal, a guerra não é apenas uma questão de estratégia e números, envolve vidas humanas, impactos sociais e valores que as máquinas não conseguem compreender por completo. Por isso, o uso desses super generais artificiais não depende apenas de tecnologia avançada. É necessário abrir um grande debate ético global, com a participação de governos, militares, cientistas, filósofos e da sociedade como um todo, para definir até onde podemos ir com a IA quando se trata de tirar vidas em conflitos armados.
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