Em janeiro de 2024, o Fundo Monetário Internacional (FMI), publicou o estudo Gen-AI: Artificial Intelligence and the Future of Work, utilizando os conceitos de exposição e complementaridade, sobre o impacto da IA Generativa no futuro do mercado de trabalho e qual o potencial para remodelar a economia global especialmente no domínio dos mercados de trabalho. Foram analisados 142 países da base de dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e utilizados os 72 subgrupos ocupacionais principais da classificação International Standard Classification of Occupations (ISCO)-08 para a segmentação das informações.
Contudo, antes de analisarmos o efeito da inteligência artificial nos empregos, é importante entendermos que as ocupações individuais são um pacote de tarefas que podem ou não serem expostas ou complementadas pela tecnologia. Sendo assim, trazemos a opinião de Pizzinelli (2023), que considera o termo exposição como o potencial de uma tarefa ser substituída pela tecnologia e complementaridade como o potencial de uma tarefa humana ser complementada pela inteligência artificial. Esse dois conceitos podem ser agrupados em índices que utilizam informações sobre o contexto social, ético e físico das ocupações, juntamente com os níveis de qualificação exigidos. Estes refletem o provável grau de proteção de uma ocupação contra o deslocamento de trabalho impulsionado por IA e, quando combinado com alta exposição à IA, dão uma indicação do potencial de complementaridade da IA.
Por exemplo, por causa dos avanços na análise textual, os juízes estão altamente expostos à IA, mas também estão altamente protegidos da substituição, porque atualmente é improvável que a sociedade delegue decisões judiciais a IA não supervisionada. Consequentemente, a IA provavelmente complementará os juízes, aumentando sua produtividade em vez de substituí-los.
Por outro lado, os trabalhadores administrativos, que também estão muito expostos à IA, mas têm um nível mais baixo de proteção correm mais risco de serem substituídos. O nível de exposição e complementaridade provavelmente evoluirá ao longo do tempo e em um ritmo diferente entre os países, refletindo maior precisão de IA, o que diminuirá as chances de “”alucinações”” (resposta da IA que não é baseada na realidade ou em um determinado contexto).
As primeiras análises revelaram que as economias avançadas experimentarão os benefícios e as armadilhas da IA mais cedo do que as emergentes economias de mercado e em desenvolvimento, em grande parte porque a sua estrutura de emprego está centrada em funções com utilização cognitiva intensiva.
Gráfico de Análise do Nível de Exposição e Complementaridade da IA em Trabalho Humanos.
Analisando a Figura 1 acima, podemos destacar alguns pontos:
Cerca de 40% dos trabalhadores em todo o mundo estão em ocupações de alta exposição;
Nas economias avançadas essa exposição chega a 60%, o que indica implicações macroeconômicas potencialmente grandes.
As economias avançadas têm maior participação de ocupações de alta exposição, com baixa ou alta complementaridade, do que as economias de mercado emergentes e os países de baixa renda.
Na média das economias avançadas, 27% do emprego estão em ocupações de alta exposição e alta complementaridade, 33% em empregos de alta exposição e baixa complementaridade. Já em comparação as economias de mercado emergentes têm quotas correspondentes de 16% de exposição e 24% em complementaridade. Os países de baixa renda têm participações de 8% e 18%, respectivamente.
Um resultado semelhante é apontado quando se olha para países individualmente selecionados usando classificações mais refinadas (Figura 1, painel 2).
Quase 70% e 60% do emprego no Reino Unido e nos EUA, respectivamente, estão em ocupações de alta exposição, aproximadamente igualmente distribuídas entre aquelas que são posições de alta e baixa complementaridade.
Já o emprego de alta exposição em economias de mercados emergentes varia de 41% no Brasil a 26% na Índia.
A composição da força de trabalho em termos de amplos grupos ocupacionais que refletem a estrutura econômica dos países explica a maioria das diferenças de exposição e complementaridade entre eles. A Figura 2 abaixo, por exemplo, apresenta as quotas de emprego por grupos profissionais para três países com percentagens de emprego marcadamente diferentes nas profissões expostas.
O Reino Unido tem uma parcela significativa de emprego em ocupações profissionais e gerenciais, que exibem alta exposição e alta complementaridade, e em trabalhadores de apoio administrativo e ocupações técnicas, geralmente alta exposição e baixa complementaridade.
Na Índia, a maioria dos trabalhadores são artesãos, trabalhadores agrícolas qualificados e trabalhadores pouco qualificados, ou “”elementares””; a maioria deles está na categoria de baixa exposição.
O Brasil representa um caso amplamente intermediário.
Gráfico de Análise do Nível de Exposição e Complementaridade da IA por profissão.
Esses resultados sugerem que as economias avançadas podem ser mais suscetíveis às mudanças no mercado de trabalho a partir da adoção da IA, materializando-se em um horizonte de tempo mais curto do que em economias de mercado emergentes e países de baixa renda. Dadas suas altas participações de emprego em ocupações de baixa e alta complementaridade, as economias avançadas podem experimentar um efeito mais polarizado da transformação estrutural provocada pela IA. Por um lado, enfrentam um maior risco de substituição da mão de obra e de redução da renda para os trabalhadores nas ocupações de alta exposição e baixa complementaridade.
Por outro lado, eles estão mais bem posicionados para aproveitar precocemente as oportunidades emergentes de crescimento da IA como resultado de sua maior quantidade de empregos de alta exposição e alta complementaridade. O impacto líquido no emprego dependerá da capacidade dos países de inovar, adotar e se adaptar à IA.
Tanto os mercados avançados como os emergentes e as economias em desenvolvimento estão sujeitos a uma incerteza considerável em torno destas previsões. Por exemplo, em países de baixa renda, a adoção de IA poderia espelhar a rápida adoção da tecnologia móvel e levar a grandes benefícios marginais da IA. Além disso, com a infraestrutura digital adequada, a IA pode também representar uma oportunidade para os mercados emergentes e as economias em desenvolvimento resolverem a escassez de competências, especialmente nos setores da saúde e da educação, aumentando potencialmente a inclusão e a produtividade.
A inteligência artificial (IA) deve mudar profundamente a economia global, sendo comparada como uma nova revolução industrial e suas consequências para as economias e as sociedades continuam a serem difíceis de prever. Isso é especialmente evidente no contexto dos mercados de trabalho, onde a IA promete aumentar a produtividade enquanto ameaça substituir os humanos em alguns empregos e complementá-los em outros. Contudo, os países enfrentarão desafios diferentes, pois existe uma influencia direta do estágio econômico que se encontram e do grau de maturidade da sua força de trabalho em relação ao impacto da IA nos seus empregos.
Referências.
Pizzinelli, C., A. Panton, M. M. Tavares, M. Cazzaniga e L. Li. 2023. “”Exposição do Mercado de Trabalho à IA: Diferenças entre Países e Implicações Distribucionais.”” Documento de Trabalho do FMI 2023/216, Fundo Monetário Internacional, Washington, DC.

