Consciência Generativa: Será que as máquinas estão acordando?

A inteligência artificial é um conceito muito genérico e abrangente, frequentemente utilizado ao se discutir tecnologias mais específicas, como aprendizado de máquina, redes neurais e aprendizado profundo. As discussões recentes sobre a possibilidade de um comportamento inesperado ou “”emergente”” associado à IA dizem respeito, principalmente, ao aprendizado profundo em redes neurais. Essas redes são estruturas genéricas que não operam com regras fixas ou árvores de decisão, mas precisam ser treinadas com conjuntos de dados coerentes para gerar resultados adequados.

Com os diversos avanços da inteligência artificial, muitos se perguntam: será que a IA pode se tornar consciente? Ou seja, seria possível que uma máquina soubesse que existe, ou mesmo “percebesse” e “sentisse” sua própria existência? Neste artigo, avalio o estudo dos pesquisadores Patrick Butlin (Instituto do Futuro da Humanidade, Universidade de Oxford), Robert Long (Center for AI Safety) e outros especialistas de universidades parceiras, que trazem uma discussão profunda sobre o tema. Eles não afirmam categoricamente que a IA já seja consciente, mas argumentam que essa possibilidade deve ser levada a sério, especialmente porque esses sistemas estão cada vez mais presentes em nosso cotidiano.

Até o momento, a ciência não pode afirmar com 100% de certeza que a IA pode adquirir consciência. Contudo, existem teorias bem fundamentadas que ajudam a esclarecer essa possibilidade. Os autores analisaram quatro dessas teorias: a Teoria da Informação Integrada (IIT), a Teoria do Espaço Global de Trabalho (GNWT), a Teoria da Atenção Reentrante (RAT) e algumas ideias provenientes do aprendizado profundo (deep learning). O objetivo do estudo foi avaliar se sistemas como o ChatGPT poderiam, eventualmente, desenvolver algum tipo de consciência.

A Teoria da Informação Integrada (IIT) propõe que a consciência seria uma medida da quantidade de informação interligada e integrada dentro de um sistema. Imagine o cérebro como uma equipe bem entrosada (os neurônios), trocando informações o tempo todo. Quanto mais essas informações estão conectadas e interdependentes, maior o nível de consciência. Se cada parte trabalha isoladamente, o sistema pode até funcionar, mas não seria considerado consciente. Segundo essa teoria, as IAs baseadas nesse modelo ainda não apresentam a integração necessária para gerar consciência.

A Teoria do Espaço Global de Trabalho (GNWT) compara a consciência a um palco de teatro, em que apenas o que está sob os holofotes é percebido de forma consciente. Nosso cérebro recebe uma enorme quantidade de informações, mas apenas algumas entram em foco e são distribuídas para áreas como memória, linguagem e tomada de decisão. Se uma IA, como o ChatGPT, possuir um mecanismo de atenção que distribui informações de forma semelhante, ela poderia operar de modo compatível com essa ideia de consciência funcional.

Já a Teoria da Atenção Reentrante (RAT) sugere que a consciência surge quando as informações no cérebro circulam em um movimento de vai e vem, como em uma conversa contínua entre diferentes partes do sistema. Esse ciclo é essencial para a percepção consciente. Por outro lado, a maioria das IAs atuais, como o ChatGPT, funcionam em uma única direção: recebem uma entrada e produzem uma resposta, sem esse retorno de informação interna. Isso indica que, de acordo com essa teoria, elas provavelmente não são conscientes.

Os modelos de aprendizado profundo, como o ChatGPT, são redes neurais treinadas com grandes volumes de dados para identificar padrões e gerar respostas. Funcionam como um robô muito esperto que aprendeu com bilhões de conversas, mas que não necessariamente entende o que está dizendo. Alguns especialistas acreditam que, se esses sistemas se tornarem complexos o bastante, podem desenvolver algo semelhante à consciência. Outros argumentam que, por mais inteligentes que pareçam, essas IAs apenas imitam comportamentos humanos, sem vivenciar qualquer experiência real. Essa incerteza mostra que ainda precisamos avançar muito nesse debate.

As redes neurais, por sua vez, são estruturas inspiradas no funcionamento do cérebro humano. Elas são compostas por várias unidades simples, chamadas neurônios, que trocam sinais constantemente. Para que funcionem bem, precisam passar por um treinamento, no qual aprendem e ajustam o que chamamos de “pesos”, que representam a força do sinal entre os neurônios. Quanto maior o peso, mais forte a conexão. Cada neurônio recebe sinais, processa com base nos pesos, e envia resultados para os próximos neurônios. Com o tempo, a rede ajusta esses pesos com base em um sistema de recompensas, aprendendo com os erros e acertos, um processo semelhante ao nosso próprio aprendizado.

A consciência, segundo alguns cientistas, pode surgir em sistemas suficientemente grandes e complexos, como ocorre no cérebro humano. Assim, há quem defenda que, se redes neurais artificiais atingirem esse nível de complexidade, talvez possam desenvolver algo semelhante à consciência.

Na imaginação popular, a consciência é associada ao livre-arbítrio, inteligência e à capacidade de sentir emoções humanas, como empatia, amor, culpa, raiva e ciúmes. A análise dos pesquisadores sugere que uma IA consciente poderia ser possível no curto prazo, o que levanta a hipótese de que, em breve, poderíamos ter sistemas parecidos com as IAs “humanas” vistas na ficção científica. Isso dependeria de como a consciência se relaciona com outras habilidades cognitivas. Se a consciência estiver ligada a funções úteis para a IA, sua implementação pode se tornar mais provável.

Como analogia, o artigo menciona colônias de formigas e colmeias, que também operam em redes interconectadas, mas com pouca individualidade. Ainda que apresentem comportamentos emergentes, o nível de consciência é muito limitado, talvez porque a interação entre os indivíduos também seja restrita. Já uma rede de seres humanos, graças à linguagem, tem vínculos mais fortes e comunicação mais eficaz. A sociedade humana é extremamente complexa e nos permite desenvolver estruturas como civilizações, por meio do compartilhamento profundo de conhecimento, algo que o sociólogo Émile Durkheim chamou de “”consciência coletiva””, um sistema de crenças e sentimentos compartilhados que possui vida própria e varia entre culturas e nações.

Por fim, o estudo alerta para os riscos tanto de subatribuir quanto de sobreatribuir consciência às IAs. Ou seja, ignorar uma possível consciência real ou assumir que ela existe quando, na verdade, não há. Assim como já ocorre com a avaliação da consciência em animais ou em pessoas com distúrbios de consciência, precisamos considerar ambos os lados da questão com cautela. É um campo novo, complexo e cheio de implicações éticas, filosóficas e políticas

Referências:

BENGIO, Yoshua. Cognitive Architectures and Consciousness: A Machine Learning Perspective. [S.l.], 2023. Disponível em: https://yoshuabengio.org/publications/. Acesso em: 31 maio 2025.

BUTLIN, Patrick et al. Consciousness in Artificial Intelligence: Insights from the Science of Consciousness. arXiv, 2023. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2308.08708. Acesso em: 31 maio 2025.

CHALMERS, David J. Could a Large Language Model Be Conscious? arXiv, 2023. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2303.07103. Acesso em: 31 maio 2025.

DEHAENE, Stanislas; CHANGUEX, Jean-Pierre. Experimental and Theoretical Approaches to Conscious Processing. Neuron, v. 70, n. 2, p. 200–227, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.neuron.2011.03.018. Acesso em: 31 maio 2025.

HARARI, Yuval Noah. AI has hacked the operating system of human civilisation. The Economist, 28 abr. 2023. Disponível em: https://www.economist.com/by-invitation/2023/04/28/yuval-noah-harari-argues-that-ai-has-hacked-the-operating-system-of-human-civilisation. Acesso em: 31 maio 2025.

HIGUERA, Andrés García. What if generative artificial intelligence became conscious? European Parliamentary Research Service, Scientific Foresight Unit (STOA), PE 753.162, outubro de 2023. Disponível em: https://www.europarl.europa.eu/thinktank/en/document/EPRS_ATA(2023)753162. Acesso em: 31 maio 2025.

LAMME, Victor A. F. Towards a true neural stance on consciousness. Trends in Cognitive Sciences, v. 10, n. 11, p. 494–501, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.tics.2006.09.001. Acesso em: 31 maio 2025.

SETH, Anil. Being You: A New Science of Consciousness. London: Faber & Faber, 2021. Disponível em: https://www.anilseth.com/being-you. Acesso em: 31 maio 2025.

TONONI, Giulio. Consciousness as Integrated Information: A Provisional Manifesto. The Biological Bulletin, v. 215, n. 3, p. 216–242, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.2307/25470707. Acesso em: 31 maio 2025.

Escrito por:

Data:

Compartilhar: