A história nos ensinou que as tecnologias de uso geral mudaram a geopolítica mundial nas suas respectivas épocas, tais como a máquina a vapor, eletricidade e internet. Com o advento da IA não será diferente, os países que estiverem preparados para receber toda a aceleração de produtividade que já está sendo proporcionada pela conectividade da IA com outras tecnologias, irão se colocar em vantagem nas relações internacionais de poder.
Em 2017, o Presidente russo Wladimir Putin, numa conversa com estudantes por ocasião do início do ano letivo no país europeu disse que, “a inteligência artificial é o futuro, não apenas para a Rússia, mas para toda a humanidade. Ela traz oportunidades colossais, mas também ameaças difíceis de serem previstas. Quem quer que se torne líder nessa esfera vai governar o mundo”, complementou o líder russo.
Para entendermos o impacto da IA na geopolítica mundial é importante antes avaliarmos as relações de poder entre os países. Segundo Waltz, pensador neorrealista e autor de Man, the State, and War (1959) e de Theory of International Politics (1979), a ausência de um poder global regulador mantém os Estados em constante movimento de natureza, livres para guerrear e fazer paz, gerando tensão e insegurança. Essa situação inevitavelmente leva à guerra e ao armamento dos Estados para sobrevivência e as instabilidades estatais acabam “justificando” intervenções militares, especialmente em regiões ricas, devido à falta de mecanismos legais restritivos. O conceito de IA como uma ferramenta geopolítica é inovador, familiar, porém abstrato, mas os potenciais estratégicos desta tecnologia devem ser compreendidos e analisados para que possamos nos preparar para uma possível mudança da forma que a política, segurança e diplomacia operam.
Mearsheimer, autor de The Tragedy of Great Power Politics (2001), afirma que conquistar a posição de hegemonia global é uma tarefa impossível de ser concluída, pois a expansão dos poderes estatais está restringida por um fator: os oceanos. Eles impedem que os Estados lancem seus projetos militares, econômicos e geográficos para fora dos mares, de modo que possam controlá-los efetivamente. A limitação territorial dos Estados cria vulnerabilidades que outros podem explorar, resultando na divisão do poder global. Sem um hegemon (potência hegemônica) que atue como um policial, os Estados, impulsionados pela sobrevivência, adotam três estratégias principais para aumentar seu poder: buscar hegemonia regional, alcançar prosperidade máxima e garantir superioridade nuclear. A superioridade nuclear é a principal fonte de potencial destrutivo das potências nucleares, devido à capacidade de destruição em massa, intimidando outros Estados a cederem às vontades de quem as possui.
O ciberespaço que a IA opera não existe limitação geográfica, ou seja, não existem oceanos que dividam as potências gerando limites territoriais, por isso, o seu potencial construtivo ou destrutivo, dependendo da sua forma de atuar. Desta forma, essas tecnologias emergentes moldarão a balança de poder principalmente através de meios militares e econômicos, proporcionando superioridade armamentista e uma base econômica estável, essencial para a manutenção do poder militar (Horowitz, 2018). Esta capacidade de controlar a IA prepara os Estados para dominar a política, a economia e diplomacia globais, sendo a IA crucial para a vitória em batalhas modernas (Acharya, 2019). Sendo assim, a corrida global por IA para segurança nacional e o desenvolvimento econômico é comparada a uma corrida armamentista nos relatórios de segurança nacional dos países competidores (Horowitz, 2018).
O último relatório sobre tendências para a inteligência artificial no mundo, publicado em abril deste ano, pela Universidade de Stanford (EUA), o AI INDEX REPORT, destacou que, em 2023, 61 modelos de IA originaram-se de instituições sediadas nos EUA, ultrapassando em muito os 21 da União Europeia e os 15 da China. A Europa, o Reino Unido, o Japão, a Coreia do Sul e a Rússia são outros atores que têm um papel importante a desempenhar no jogo e, embora seja pouco provável que ganhem, têm um enorme interesse porque o resultado pode fazê-los mudar de posição no mapa geopolítico mundial durante muitos anos.
AI INDEX REPORT 2024 – STANFORD UNIVERSITY
Os Estados Unidos e a China possuem as maiores empresas tecnológicas. A China também controla, direta ou indiretamente, a produção de uma porcentagem muito elevada das matérias-primas necessárias a cadeia produtiva da inteligência artificial, tais como chips e semicondutores. Neste sentido, podemos destacar que, as empresas como a Microsoft, Google, Meta, Apple, NVIDIA ou Qualcomm nos Estados Unidos e Baidu, Alibaba ou Tencent na China, são as que estão mais investindo para o desenvolvimento destas tecnologias e especificamente no campo da IA.
Dessa forma, até no momento, é possível afirmar que as Inteligências Artificiais causarão sim um impacto na balança de poder e possivelmente reestruturarão as atuais definições de segurança do Estado-Nação. Contudo é impossível prever quais serão estes impactos, pois a tecnologia não está completamente desenvolvida para ser aplicada de forma generalizada.
Referências.
ACHARYA, G. P. The Impacts of AI in International Relations. The Daily Star, [S. l.], p. ., 21 Jul. 2019. Disponível em: https://www.thedailystar.net/opinion/perspective/news/the-impact-ai-international-relations-1774360. Acesso em: 10 mai. 2024.
CARR, Madeline. US Power and the Internet in International Relations: The Irony of the Information Age. Nova Iorque: Palgrave Macmillan. 2016.
HOROWITZ, Michael C. Artificial Intelligence, International Competition, and the Balance of Power. Texas National Security Review, [S. l.], v. 1, n. 3, p. 37-57, 1 maio 2018. Disponível em: https://tnsr.org/2018/05/artificial-intelligence-international-competition-and-the-balance-of-power/. Acesso em: 13 out. 2023.
MEARSHEIMER, John. The Tragedy of Great Power Politics. Nova Iorque: W.W. Norton & Company, 2001.
METZ, Cade. In Two Moves, AlphaGo and Lee Sedol Redefined the Future.
PERRAULT, R. et al. The AI index 2024 annual report. AI Index Steering Committee, Human-Centered AI Institute, Stanford University, apr./2024.
WIRED, [S. l.], 16 mar. 2016a. Disponível em: https://www.wired.com/2016/03/two-moves-alphago-lee-sedol-redefined-future/. Acesso em: 10 set. 2020.
WALTZ, Kenneth. Man, the State, and War. Nova Iorque: Columbia University Press. 1959.

