Inteligência artificial pode ter inspiração para pintar?

Quando Marcel Duchamp propôs que um mictório de porcelana fosse considerado arte e o submeteu para uma exposição no início do século XX, em Nova York, ele virou o mundo da arte de cabeça para baixo. Ele argumentava que qualquer coisa poderia ser considerada arte, desde que fosse escolhida pelo artista e assim rotulada. Foi um pensamento profundamente revolucionário que desafiou as noções anteriores de arte como algo belo, tecnicamente habilidoso e emotivo.[1]

Voltando um pouco mais no tempo, à invenção da fotografia por volta de 1800, alguns artistas viam a câmera como uma adversária e as fotografias como inimigas da arte tradicional. Os que argumentavam que a fotografia era apenas um processo mecânico alegavam que ela não exigia habilidade manual, ao contrário da pintura ou da escultura, bastava apertar um botão. Por outro lado, houve movimentos que buscaram integrar a fotografia à arte tradicional, realizando intervenções que geravam efeitos e imagens únicas. O problema dessas discussões é que dificilmente haverá um consenso, apenas opiniões divergentes entre os dois grupos. No entanto, em vez de substituir a pintura, a fotografia impulsionou o desenvolvimento do movimento da arte moderna no século XX. [2]

No século XXI, temos o exemplo da fotografia em preto e branco de Peter Lik, intitulada Phantom (fantasma, em inglês), capturada em 1999. A imagem retrata a forma humana criada pelos efeitos de luz sobre a poeira no interior do cânion Antelope, no Arizona, EUA. Ela foi vendida por US$ 6,5 milhões em 2014 para um comprador anônimo. O fotógrafo, aliás, detém quatro das 20 imagens mais caras já comercializadas no mundo. Em 2024, uma obra de arte composta por uma banana presa à parede com fita adesiva foi vendida por US$ 6,2 milhões (cerca de R$ 35 milhões) ao empresário de criptomoedas Justin Sun, reacendendo a controvérsia universal sobre o que pode ou não ser considerado arte.[3]

Atualmente, a inteligência artificial está sendo usada para gerar pinturas, imagens, livros e até esculturas, algumas das quais são vendidas por milhares de dólares. Diante disso, será que precisamos reformular nossa definição de arte? À medida que os humanos se fundem cada vez mais com a tecnologia, a primeira artista robô humanoide do mundo, Ai-Da, criada em 2019, nos leva a refletir se as obras produzidas por máquinas podem realmente ser chamadas de “arte”. Ai-Da pode desenhar e se engajar em discussões animadas. Seu braço robótico, desenvolvido por Salah Al Abd e Ziad Abass, permite que ela segure um lápis; seu rosto de silicone, projetado por Lucy Seal, Alex Kafoussias e Tim Milward, a faz parecer “viva”. Esses elementos, junto com os movimentos e gestos para os quais foi programada, levantam questões sobre a identidade humana na era digital. [4]

A própria existência de Ai-Da questiona como definimos arte e quem ou o quê pode produzi-la. Algoritmos de IA e robôs como Ai-Da representarão o fim da criatividade humana ou poderão ser aproveitados para expandir nosso potencial criativo? Uma IA poderia contar piadas melhores do que um comediante? Como argumenta a filósofa Alice Helliwell, da Northeastern University London, se consideramos peças radicais como o mictório de Duchamp como arte legítima, como podemos descartar criações de um algoritmo generativo? Afinal, ambos foram controversos em seu tempo e envolvem objetos que não foram, tecnicamente, criados pela mão de um artista humano.[5]

Historicamente, movimentos artísticos radicais sempre refletiram preocupações culturais de sua época. Os criadores de Ai-Da, o galerista Aidan Meller e a pesquisadora Lucy Seal, citam exatamente esse aspecto como justificativa para a existência de um artista humanoide. Ai-Da representa um dos medos contemporâneos mais expressivos: o avanço da inteligência artificial, a automação do trabalho e o risco de dominação tecnológica. No entanto, revoluções tecnológicas como a IA não precisam significar o fim da arte, como muitos temem. Elas podem inaugurar uma nova era artística e nos levar a formas completamente diferentes de ver e criar.[6]

Diferente de geradores de imagem como DALL·E ou Midjourney, que operam com base em conjuntos de dados pré-existentes, o processo artístico de Ai-Da inclui a captura de imagens por meio de câmeras instaladas em seus olhos, permitindo a produção de obras originais como autorretratos com base em estímulos visuais capturados em tempo real. Isso a torna criativa por si mesma? Ou a autoria deve ser creditada aos artistas cujas obras alimentaram seu treinamento, ou ainda aos engenheiros que escreveram seu código?

Muitos artistas veem a IA como um novo meio criativo, um instrumento comparável ao pincel, que pode ser usado para expandir suas possibilidades expressivas. Os criadores de Ai-Da defendem que as obras geradas por ela são, sim, criativas. Mas se um robô ou um algoritmo pode ser reconhecido como um artista autônomo ainda é motivo de debate, sendo a questão da autoria um dos principais pontos em disputa. Afinal, quem é o verdadeiro autor de uma criação algorítmica?

Marcus du Sautoy, matemático da Universidade de Oxford e autor de The Creativity Code: Art and Innovation in the Age of AI, oferece uma perspectiva relevante. Ele afirma que os humanos também são propensos a se comportar como máquinas, repetindo padrões e seguindo regras, como pintores ou músicos presos a estilos específicos. A IA pode nos ajudar a romper com essa rigidez e nos incentivar a sermos criativos novamente como seres humanos. Para du Sautoy, a IA é uma colaboradora poderosa no despertar da criatividade humana.[7]

Os processos de machine learning utilizados para treinar algoritmos generativos podem ser, por si só, um processo criativo. Segundo du Sautoy, o código, quando exposto a dados como obras de arte existentes, é capaz de aprender, sofrer mutações e evoluir. Com isso, o código resultante ao final do processo pode ser muito diferente daquele originalmente escrito por humanos. E é possível que ele produza algo que mereça ser chamado de criatividade do próprio código, e não apenas do humano que iniciou o processo.

Diante disso, permanece a questão: como confiar nas decisões ou resultados de uma IA se não compreendemos plenamente como ela chega até eles? A arte é uma expressão exclusivamente humana? A possibilidade de máquinas verdadeiramente artísticas desafia uma das crenças mais arraigadas sobre a condição humana: a de que a arte é feita por humanos, para humanos, e está impregnada de suas emoções, desejos, medos e motivações, ou ao menos de suas necessidades práticas, econômicas e afetivas.

As formas tradicionais de arte continuarão a existir, assim como as obras produzidas com auxílio da inteligência artificial continuarão a evoluir. A colaboração entre humanos e máquinas deve ser vista como uma oportunidade de potencial criativo genuíno. Mais do que o resultado estético final, é a intenção do artista e a prática humana por trás de uma obra, mesmo que criada com ferramentas tecnológicas, que continua sendo um dos principais critérios para reconhecê-la como arte.

Referências.

[1] Trust Me²: A arte de Marcel Duchamp Trust Me Now. Disponível em: https://trustme-now.blogspot.com/2011/06/arte-de-marcel-duchamp.html

[2] Peter Lik Sets World Record: “”Phantom”” Sells for $6.5 Million Lik.com. Disponível em: https://lik.com/blogs/journal/peter-lik-sets-world-record

[3] Peter Lik’s Phantom Becomes the Most Expensive Photograph in History Architectural Digest. Disponível em: https://www.architecturaldigest.com/story/peter-lik-photo-sale

[4] Ai-Da: Portrait of the Robot Design Museum. Disponível em: https://designmuseum.org/exhibitions/ai-da-portrait-of-the-robot

[5] Ai-Da Robot: The World’s First Ultra-Realistic Artist Robot MLE Charbinger. Disponível em: https://www.mlecharbinger.org/?p=14227

[6] Ai-Da the Artist Marlene Hauser. Disponível em: https://marlenehauser.com/ai-da-the-artist/

[7] First Artwork Painted by Humanoid Robot Sells at Auction — for a Whopping $1 Million New York Post. Disponível em: https://nypost.com/2024/11/08/lifestyle/first-art-piece-painted-by-humanoid-robot-sells-at-auction-for-a-whopping-1-million/

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